O Blog Forninhos Virtual agradece com muito reconhecimento a celeridade da resposta de Luís Filipe Marques da Gama, Assessor Principal do Arquivo Nacional da Torre do Tombo (ANTT), no seu email en data de 14 de Dezembro de 2007.
Impressão do correio electronico em resposta a nosso pedido do 5 dezembro 2007.

Elementos relevantes para a biografia do soldado Manuel Nunes:
"1- Era cristão velho, soldado, solteiro, morador na cidade de Lisboa e natural do lugar de Forninhos, freguesia do então concelho de Penaverde (actual concelho de Aguiar da Beira), bispado de Viseu. Sabia ler e escrever “e tem princípios de latim e não tem ordens”, tendo assinado no final da sua confissão.
2- Era filho de Pedro Gonçalves, lavrador, e de sua mulher Maria Nunes, naturais e moradores em Forninhos.
Não menciona os nomes dos avós paternos, por os desconhecer, embora diga que eram lavradores, naturais e moradores em Forninhos. Quanto aos avós maternos, também lavradores, só sabe o nome do avô materno António Nunes, natural das Antas, concelho de Penalva, bispado de Viseu.
3- Manuel Nunes tinha 26 anos de idade a 10.10.1658, quando se apresentou voluntariamente na Inquisição de Lisboa, perante o Inquisidor Rodrigo de Miranda Henriques, para confessar as suas culpas. Da sua confissão constam as seguintes informações com especial interesse para a sua carreira militar: Treze anos atrás (1645), embarcara em Lisboa com destino ao Estado da Índia. Chegando à cidade de Goa, quatro meses depois mandaram-no para a ilha de Ceilão para servir como soldado, onde permaneceu cerca de doze anos. Nessa altura, os holandeses “acabaram de tomar o que faltava por conquistar da dita ilha e acharam a ele réu na fortaleza de Caleturé (?), aonde foi cativo e levado à cidade de Jacataria (?) aonde residiu onze meses, e por o meterem logo em prisão apertada enquanto não havia embarcações para o passarem à Holanda, foi obrigado dos trabalhos em que se via para melhor ter liberdade a assentar praça de soldado dos ditos holandeses, como com efeito assentou, e recebeu seu soldo nos ditos onze meses acudindo as sentinelas e às mais obrigações como os mais soldados holandeses”. Manuel Nunes declarou também “que por alguns meses no dito tempo fez saídas ao campo a pelejar com os mouros, porém nunca pelejou com católicos, nem o determinava fazer, porque logo quando assentou a dita praça declarou que era com condição de não ser obrigado a pelejar com católicos cristãos.” Declarou ainda que sendo forçado a conviver diariamente com os soldados holandeses no baluarte da cidade onde viviam, assistia todas as noites às “suas rezas e orações”, embora não as entendesse nem participasse delas.
Disse também que nesse tempo “comeu carne nos dias proíbidos, porque não tinha outra coisa para comer”, etc. Finalmente, informou que antes de regressar à cidade de Lisboa esteve na Holanda, onde conviveu com todo o tipo de pessoas. Ao longo da sua confissão, refere que nesses anos teve como companheiros outros 11 militares portugueses, igualmente presos pelos holandeses e a quem também serviram como soldados, os quais eram naturais de outras terras portuguesas.
4- Declarou ser católico praticante, baptizado na igreja de Santa Marinha, do lugar de Forninhos, pelo Padre António Nunes, cura do dito lugar e já defunto, sendo seu padrinho Jácome de Almeida, do lugar das Antas. Disse mais que foi crismado na igreja de Santa Justa, em Lisboa, pelo Arcebispo de Lisboa.
5- Considerando que a confissão foi voluntária, estava arrependido e pedia perdão, a sentença de 12.10.1658 limitou-se a adverti-lo a não reincidir nas culpas confessadas e a manter-se um fiel católico, cabendo-lhe pagar as custas do processo. "
Agradeço pessoalmente a Sra Odete Martins qui tive ao telefone no principio da semana assim como todas as pessoas que contribuiram nesta resposta que trouxe a luz uma parte da nossa historia local assim como uma dimensão alem mar que so nos pode comover.
Agradeço o professionalismo e o rigor do trabalho do ANTT, de divulgação da nossa memoria que é parte integrante da nossa historia.
Melhores cumprimentos
"FORNINHOS SEMPER FIDELIS"
Carlos de Matos Dos Santos
Extra Bonus : Mapa interactivo de Ceilão, Mapa holandese de 1722 :
8 comentários:
Caro Carlos:
Parabens pelas descobertas, de facto os funcionarios do IPTT, foram muito eficientes e prestativos, nem parece que estamos em Portugal!
Para comentar quero realcar o mesmo que o meu amigo; os apelidos usados por esse soldado e sua familia; Nunes e Almeida podem ser encontradaos em muitissimas familias de cristaos-novos, tambem e interessante o facto do padrinho Jacome (que podera ser um aportuguesamento de Jacob) de Almeida, ser da mesma terra do seu avo materno e ter o mesmo apelido, podendo indiciar familiariedade, com o neofito.
Tambem num tempo em que pouca da gente que trabalhava da agricultura sabia ler e escrever, este seu conterraneo sim sabia o que me poderia levar a pensar que embora ele afirme ser cristao-velho, podem ficar muitas duvidas, alem disso devido ao facto de ser ele proprio a denunciar-se nao creio que os inquisidores tenham feito uma investigacao muito a fundo!
Para ja e o que se me oferece dizer, verei se descubro algo mais depois direi.
Um abraco de amizade e um bom fim de semana.
Ola a todos,
obrigado Al deses primeiros comentarios. Reli atentivamente essa declaração e relevei modestamente algumas conclusões :
- Qual seria o motivo do regresso ?
Claro que um homem livre como ele poderia ter escolhido ficar na Indonésia ou na India, ja que la estava e porque não continuar a receber saldo pelos holandese ou então ficar num dominio portuguese e estabelecer-se para fundar familia e povoar o Império. Igualmente poderia ja ter ficado na Holanda onde haveria mais possibilidades de comercio ou de riqueza.
No entanto atravessou o planeta para voltar a Portugal e isso era uma aventura arriscada em si naquela altura, podemos ter a certeza que ele regressou voluntariamente... e bem motivado ;o))
- 2 dias de processo ?
Qual a sinceridade da sua declaração? Naquela altura não havia bilhetes de identidade e a usurpação seria facil. Penso que a autodeclaração é verdadeira. Os inquisidores não tinham tecnicamente meios de averiguar o que fosse em dois dias do seu estado civil ou factos da vida. Mas poderiam ter diligentado um inquérito para ir até Forninhos averiguar a sua identidade, etc... No entanto Ele deu-lhes informações suficientes para que ele fosse meramente advertido e julgado em dois dias.
- Quem era Jacome de Almeida ?
O padrinho de Baptismo. Esse homem era a sua garantia de ser baptizado e no meu ver um homen chave na sua declaração. Penso que deve ser um homen importante e que a pista das Antas no dara mais infomações.
Ele menciona que o cura ja tinha falecido ? Isso mostra que o sabia antes de embarcar para as Indias ou que eu soube ao seu regresso e por um lado uma certa ligação as coisas da igreja.
Jacome como Jame, Jaime, James, Tim, Jim, Jimmy, Jack, Jak, Jacques, Jacquou,Jacquemine, Giacomo, Diego, Tiago, Diogo... etc... são bem as formas vernaculares na europa cristã do apelido biblico hebraico "Jacobus". Esses apelidos eram tanto populares em França, na Inglaterra etc... que não podem ser relevados de uma qualidade de cristão novo no meu ponto de vista. A cristandade sempre usou nomes biblicos e isso até hoje.
- Embarcado para as Indias com 13 anos ?
Ainda era frequente nas decadas de 50, 60 do seculo passado nas nossas terras pobres enviar os filhos a partir dos 10 anos servir para as cidades ou casas de senhores... o que seria então nos principios do seculo XVII ?
No meu ver o facto de ter sido crismado na Igreja de Santa Justa o relaciona com o Mosteiro de São Dominguos, uma hipotese onde ele poderia ter recebido uma instrucção... Assim como ter em Lisboa uma pessoa, uma instituição que o protegesse da vida de então longe de Forninhos donde tinha descido enquanto os seus pais ainda la moravam...
No entanto aos 13 anos de idade teve a decisão de se embarcar para o Extremo Oriente, sera que ele recebeu uma instrucção militar para isso? desconheco as condições de enrolamento na Marinha daquele tempo mas Portugal necessitava homens para pelejar aos quatro cantos do mundo e isso era um apelo a aventura de certeza sem garantia de regresso.
Estas anotações trazem umas pistas de pesquisa sobre este caso que visto a singularidade so nos pode interrogar.
Espero ter o prazer de partilhar esse entusiasmo com todos os amigos de Forninhos.
@té breve
Carlos
Se conseguir consultar os arquivos paroquiais tanto de Forninhos como das Antas, provavelmente conseguira muita mais informacao, infelizmente eu estou longe e nao me poderei deslocar nem a Guarda, nem a Viseu brevemente.
Um abraco amigo e festas felizes.
Penso que a historia deste soldado, em especial, mas também a de todos os soldados naturais de Forninhos, que um dia sairam da terra e que nunca voltaram, é merecedora de uma digna homenagem,um monumento em memória de todos.
Um Feliz Natal pra todos Vós
Claro Paula,
como te tinha proposto quando trocamos por msn "Um Memorial" digno desse nome poderia ser um projecto à propor ao pessoal e assim lembrar os filhos da nossa terra mortos pela nação. Penso tambem que os emigrantes do principio do seculo passado, Brasil, USA etc... que nunca chegaram a voltar podem ser lembrados nesse monumento igualmente, com plaquas explicativas e testemunhos dos sobreviventes que participaram tambem nesses teatros de luta.
Seria um lugar de recolhimento e ao mesmo tempo de reconhecimento do sacrificio feito. Penso especialemente no meu tio Carlos e no Viriato e aos demais Forninhenses que perderam a vida nas guerras coloniais. Devemos-lhes um dever de mémoria.
Enviei um pedido para os arquivos holandeses com os dados do IPTT veremos o que a saga desse nosso soldado vai trazer.
Um abraço forninhense.
Carlos
Meu "caro", desde já os parabéns pelos artigos aqui publicados.
Sou um leitor assiduo do seu trabalho.
Um Santo Natal!
Caro amigo:
Desejo-lhe um Santo e Feliz Natal!
Continue divulgar a terra que tanto ama e a destacar as gentes da sua terra.
Uma abraço amigo
JPClemente
Excelente trabalho Carlos!!!
Fazes parte do tipo de pessoas que deviamos ter por cá de modo a conseguirmos reunir mais informações e quem sabe avançar com uma publicação.
Em relação ao memorial vaos publicar um post sobre isso.
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